sábado, 30 de junho de 2018

Mangústia


Chama-se de angústia a aguda sensação psicológica assinalada por sufoco, insegurança, tristeza, ressentimento, dor... Na psiquiatria moderna é tida como uma doença que pode causar problemas psicossomáticos. 

Já, a mangústia é tudo isso mais o calafrio que se dá de cabo à rabo no espinhaço, o tremelique nas canelas e a vontade de chorar quando se escuta um forte bater de porta, causado por um vento violento. 

Comumente, a mangústia se dá 24 horas após um derradeiro e exagerado consumo de bebida alcoólica, acompanhada de euforia que rói a alma de qualquer cristão! 

O sofrimento causado pela mangústia é equiparado à da agonia do sentimento de um pesadelo de um santo sacerdote metralhando uma creche de indefesas órfãos.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Exame do Cabo


Há uma década, Cabo Chico foi acometido de infarto do miocárdio, sendo submetido a uma exitosa operação de ponte de safena. 

Após todo esse tempo, por sugestão médica, Cabo Chico decidiu realizar um check-up. Daí, dos diversos exames, o hemograma completo – um dos tipos mais pedidos pelos doutores – acusou-lhe “sangue no álcool”. 

E tem mais. Quando o sangue do Cabo Chico foi coletado na seringa, colocado em um tubo, depois de removido do braço o elástico, apertada uma gaze para evitar o sangramento, e posto um bandeide redondo no furo causado pela agulha, a experimentada enfermeira falou: - “Pronto, senhor, já pode ser engarrafado!”

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Ser e ter


Ser é haver a si próprio. É se expor em condição ou situação. Ter é deter a posse. É possuir e desfrutar. 

Quando me perguntam sobre o meu modo de pensar sobre o ser e o ter, eu falo: Ser para mim é essencial, pois assim me dignifico a encontrar a minha verdadeira razão de viver. O que eu sou e admito ser me permite a discernir os mais preciosos valores humanos. Ter é preciso, mas não essencial. Não é fim, é meio para eu realizar o bem para mim e para os meus. 

Daí, entre escolher um ou outro, eu digo que prefiro os dois, ou seja, “ter, sendo”! Ora, na sábia filosofia popular de que “é melhor ser rico com saúde do que pobre doente”, o ter grudado ao ser é o natural caminho para se conquistar as coisas e os momentos que nos fazem felizes. 

Aliás, ser feliz é a nossa maior razão de estarmos neste mundo em que Deus tirou do nada em gesto da mais pura humildade, ensinando-nos de maneira simples que o nada pode ser tudo!

domingo, 24 de junho de 2018

sábado, 23 de junho de 2018

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico


Cheio de lero-lero, agamenete e todo metido a grã-fino, Edmarfy costumava zanzar pelo calçadão do Vila do Mar, na Barra do Ceará, de mãos bem dadas com a amada Leideday, uma piteuzinha com cara de criança e corpanzil de chacrete. 

Certa vez, o casal foi curtir o privilegiado pôr do sol do lugar. Aí, Leideday resolveu desfilar a sua aquilatada geografia, vestindo um acetinado collant amarelo lacerdinha, enfiado pelo cós de um miúdo short jeans, que deixava à mostra as amuras da sua abundosa padaria. 

Aí, quando o par passou por um atlético bando de mal-encarados, todos bombados, um deles soltou um arrastado assobio de soim para Leideday. Na hora, Edmarfy parou, atravancou o olhar, respirou como quem sofre de pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico e, todo arrochado, desafiou o bando: - “Pra quem foi mesmo esse coió?!” 

O mais forte deles se levantou, alongou o torado pescoço, buliu os bíceps e tríceps, inchou o peitoral tatuado com um desenho de vulcão e respondeu: - “Foi pra gatinha gostosa aí que tá com você, por que?!” 

Da cabeça aos pés, Edmarfy escaneou o brucutu e, dando uma de João-sem-braço, esquivou-se num fôlego só: - “Ah, ainda bem. Pensei que fosse pra mim...” E, todo macho, seguiu avexado com a amada ao som de uma desafinada sequência de debochados flatos bucais! 

Pra quem não sabe e quer saber, creia, de 46 letras e difícil que só de se pronunciar, o “palavrão” pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico significa pneumoconiose, ou seja, uma mazela pulmonar originada pela aspiração de cinzas vulcânicas.

(Foto: Marcos Linhares)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O pão nosso de cada dia


Surgido há 6 mil anos na região da Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque, o pão é um alimento feito com farinha de trigo, água e sal. 

Sobre o seu consumo, a Organização Mundial da Saúde recomenda as pessoas comerem 50 quilos dele em um ano. O povo que mais consome pão é o marroquino, que em média abocanha 100 quilos por ano. O país que mais beira o ideal é o Uruguai, em média 55 quilos por pessoa em um ano. 

Cá matutando, um povo que se dá valor come pão de boa qualidade, o que reflete na cultura de uma nação que almeja se estabelecer no mundo como civilização de respeito. Quer dizer, a qualidade de vida ansiada por ele passa pelo pão que consome. À exemplo disso, desde o século XVII, a França tem se destacado no mundo da fabricação de pães, desenvolvendo apuradas técnicas de panificação. 

Aqui em Fortaleza a qualidade do pão tem sido discutida há algum tempo. Muitos perguntam sobre a causa dele se esfarelar tão rapidamente. “Seria em virtude da qualidade do trigo?” Uns dizem que sim, outros que não. “Seria pelo uso de bromato de potássio?” Uns dizem que sim, outros que não. 

Deixando de conversa, agora me deem licença, que eu vou tomar meu café com pão – com manteiga – coisa que não abro mão de fazer todas as tardes. Herança cultural da menina Fortaleza? Uns dizem que sim, outros também.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Revisitando meu baú de memórias


TEXTO / EXPOSIÇÃO 89 
TOTONHO LAPROVITERA / ANO 15 

O desejo de encontrar a expressão verdadeira do desenho, faz com que através de linhas, pontos e manchas, numa explosão de cores, eu busque com movimentos rápidos e gestuais alcançar o momento, captando sensações e sentimentos. 

Sendo carregado de emoção o desenho flui, registra o domínio da matéria pela ideia e torna prazerosa a prática de seu exercício. Conduz-me a sensação de concepção e perpetuação. A energia, a vivência íntima, o tempo, o espaço e a ambiência são também alguns dos elementos que somam à minha linha de criação. 

O contorno a se definir integra o corpo ou objeto ao exterior. Convida o espectador a participar imaginariamente da definição do desfecho do desenho. É a participação aberta à relação artista e público. Nos limites do horizonte do pensamento, a imaginação abre asas como pássaro, inspiração, e alça voo rumo aos céus. O voo livre, tão próprio das aves, faz com que o longo espaço seja percorrido em ritmo frenético, como quem do escuro parte ao encontro da luz. 

É fascinante voar, mesmo ainda que seja com os pés no chão. 

É fascinante desenhar! 

Totonho Laprovitera, 1989.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Vaval na Copa da Rússia


Na Rússia, em seu humilde camarote, a foto revela o simples Vaval assistindo ao jogo Brasil x Suíça, valendo pela Copa do Mundo 2018.

(Foto: Charlie Lune)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

PALHAÇO DE CIRCO


Sucedida lá pelos anos 1950, esta história eu ouvi do Alex Figueiredo, amigo de privilegiada memória e notável contador de causos. 

Após se eleger deputado estadual, um determinado doutor costumava ir todos os finais de semana com sua esposa à sua cidade natal, no interior cearense. 

Certa vez, quando lá chegaram, a esposa assim que viu um circo armado em largo terreno baldio, falou: 

- Ah, que eu quero ir... 
- Mas querida, dizem que o palhaço é muito imoral. – comentou o doutor. 
- Mas eu gosto tanto de circo... 
- Mas... 
- Mas o que, meu doutor?! Eu quero ir e vou e pronto! 
- Está bem, está bem... Cabo Otino, vá lá e diga para o palhaço que o espetáculo de hoje vai ser de respeito! Nada de saliências! 

Tido e havido como cavalo batizado, Otino era o cabo do destacamento local que cumpria a missão de proteger a autoridade maior do lugar. Como não tinha o costume de pegar leve, foi logo direto ao circo e pregou a regra de comportamento para o palhaço. 

Porém, naquela noite, tudo ia muito bem, até o ousado palhaço puxar o cós da folgada calça e gasguitar: - “É a meuda!” 

Aí, quando doutor se levantou e disse “minha filha, vamos embora, vamos embora”, cabo Otino invadiu o picadeiro e partiu pra cima do palhaço: - “Que esculhambação é essa, seu fela da gaita?! Respeite as autoridades, seu baitinga!” 

Com o dedo em riste ao nariz do acuado palhaço, prosseguiu: - “Olha aqui, seu rolete de estrume, eu não sei porque eu não arranco essa sua língua podre pelo fiofó! 

E, pra terminar, batendo com os dois dedos nas insígnias ombreais da farda militar, finalizou a regulagem se impondo como braço-de-ferro: - “E tem mais, exijo respeito porque essas fitinhas daqui não foram pregadas com sebo de pica, não!” 

Resguardados, o doutor e esposa permaneceram no camarote principal, o espetáculo prosseguiu e o palhaço, comportadíssimo, não disse mais nem um inocente nome feio sequer.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Balé


Quando esteve em Sobral, o Ballet de Kiev teve na plateia aquele que se diz um dos mais notáveis discípulos do mestre da dança Hugo Bianchi: o cearense Aureclydes! 

Registrado em cartório e batizado como José Quincas, Aureclydes reside atualmente na cidade de São Paulo, onde trabalha como testador de camas e colchões, em uma pequena fábrica localizada no distrito de Marsilac. Concomitantemente, há muito se prepara com afinco em busca de alguma oportunidade para participar de qualquer reality show. 

Pois bem, segundo Aureclydes, ao ser convidado pelos ucranianos a integrar o elenco na ocasião, da fila do gargarejo, diante do improvisado palco armado defronte ao Arco de Nossa Senhora de Fátima, situado na Avenida Dr. Guarany – antigo Boulevard Pedro II – esnobou: - “Tô fora e completamente sem clima, meu! Imagina, é fria neste calor daqui! Me pelo de medo de choque térmico...” 

Na verdade, filho de Massapê, Aureclydes passou a se identificar com a cultura ucraniana desde quando foi estudar o ginasial na Fortaleza. Tanto que, a partir daquele tempo, seu prato predileto tornou-se o tradicional "Frango à Quieve", miseramente servido no “Bar & Restaurante Russas”! Porém, depois de se entregar à geofagia e o bucho se danar a crescer, Aureclydes trocou o gosto da dança pelo o de caminhar – de bar em bar.

domingo, 10 de junho de 2018

Velhos tempos, belos dias


Sílvio Frota me enviou um vídeo do pessoal da Jovem Guarda cantando “Jovens Tardes de Domingo” e comentou: - “Bateu uma saudade do Aymar.” 

Aí, respondi: - A cara dele. Cedo da manhã, lembro, Aymar me telefonava quase que diariamente para falar de algum negócio novo dele, pra dar notícias de amigos e mangar do povo! Sinto falta disso. 

É, se não eternizada, pelo menos, a vida deveria ser do tamanho para que a saudade pudesse nos levar de volta aos momentos simples e felizes que vivemos. 

“Velhos tempos, belos dias...”

sábado, 9 de junho de 2018

Freguês de coco


Nas caminhadas no concorrido calçadão da Beira Mar, em Fortaleza, os adeptos formam um bom convívio entre eles e uma certa fidelização com os ambulantes da avenida. 

Pois não é que ao ser reclamado por um falante vendedor de coco, pela recente ausência em sua venda do assíduo freguês Mainha, Pintinho respondeu: - “Rapaz, é o seguinte. Aqui você só tem água de coco – quando muito uma lambugenzinha – e nosso amigo Mainha gosta mesmo é de quenga!” 

(Foto: Anchieta Dantas Jr.)