sábado, 23 de junho de 2018

Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico


Cheio de lero-lero, agamenete e todo metido a grã-fino, Edmarfy costumava zanzar pelo calçadão do Vila do Mar, na Barra do Ceará, de mãos bem dadas com a amada Leideday, uma piteuzinha com cara de criança e corpanzil de chacrete. 

Certa vez, o casal foi curtir o privilegiado pôr do sol do lugar. Aí, Leideday resolveu desfilar a sua aquilatada geografia, vestindo um acetinado collant amarelo lacerdinha, enfiado pelo cós de um miúdo short jeans, que deixava à mostra as amuras da sua abundosa padaria. 

Aí, quando o par passou por um atlético bando de mal-encarados, todos bombados, um deles soltou um arrastado assobio de soim para Leideday. Na hora, Edmarfy parou, atravancou o olhar, respirou como quem sofre de pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico e, todo arrochado, desafiou o bando: - “Pra quem foi mesmo esse coió?!” 

O mais forte deles se levantou, alongou o torado pescoço, buliu os bíceps e tríceps, inchou o peitoral tatuado com um desenho de vulcão e respondeu: - “Foi pra gatinha gostosa aí que tá com você, por que?!” 

Da cabeça aos pés, Edmarfy escaneou o brucutu e, dando uma de João-sem-braço, esquivou-se num fôlego só: - “Ah, ainda bem. Pensei que fosse pra mim...” E, todo macho, seguiu avexado com a amada ao som de uma desafinada sequência de debochados flatos bucais! 

Pra quem não sabe e quer saber, creia, de 46 letras e difícil que só de se pronunciar, o “palavrão” pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico significa pneumoconiose, ou seja, uma mazela pulmonar originada pela aspiração de cinzas vulcânicas.

(Foto: Marcos Linhares)

sexta-feira, 22 de junho de 2018

quinta-feira, 21 de junho de 2018

O pão nosso de cada dia


Surgido há 6 mil anos na região da Mesopotâmia, onde hoje é o Iraque, o pão é um alimento feito com farinha de trigo, água e sal. 

Sobre o seu consumo, a Organização Mundial da Saúde recomenda as pessoas comerem 50 quilos dele em um ano. O povo que mais consome pão é o marroquino, que em média abocanha 100 quilos por ano. O país que mais beira o ideal é o Uruguai, em média 55 quilos por pessoa em um ano. 

Cá matutando, um povo que se dá valor come pão de boa qualidade, o que reflete na cultura de uma nação que almeja se estabelecer no mundo como civilização de respeito. Quer dizer, a qualidade de vida ansiada por ele passa pelo pão que consome. À exemplo disso, desde o século XVII, a França tem se destacado no mundo da fabricação de pães, desenvolvendo apuradas técnicas de panificação. 

Aqui em Fortaleza a qualidade do pão tem sido discutida há algum tempo. Muitos perguntam sobre a causa dele se esfarelar tão rapidamente. “Seria em virtude da qualidade do trigo?” Uns dizem que sim, outros que não. “Seria pelo uso de bromato de potássio?” Uns dizem que sim, outros que não. 

Deixando de conversa, agora me deem licença, que eu vou tomar meu café com pão – com manteiga – coisa que não abro mão de fazer todas as tardes. Herança cultural da menina Fortaleza? Uns dizem que sim, outros também.

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Revisitando meu baú de memórias


TEXTO / EXPOSIÇÃO 89 
TOTONHO LAPROVITERA / ANO 15 

O desejo de encontrar a expressão verdadeira do desenho, faz com que através de linhas, pontos e manchas, numa explosão de cores, eu busque com movimentos rápidos e gestuais alcançar o momento, captando sensações e sentimentos. 

Sendo carregado de emoção o desenho flui, registra o domínio da matéria pela ideia e torna prazerosa a prática de seu exercício. Conduz-me a sensação de concepção e perpetuação. A energia, a vivência íntima, o tempo, o espaço e a ambiência são também alguns dos elementos que somam à minha linha de criação. 

O contorno a se definir integra o corpo ou objeto ao exterior. Convida o espectador a participar imaginariamente da definição do desfecho do desenho. É a participação aberta à relação artista e público. Nos limites do horizonte do pensamento, a imaginação abre asas como pássaro, inspiração, e alça voo rumo aos céus. O voo livre, tão próprio das aves, faz com que o longo espaço seja percorrido em ritmo frenético, como quem do escuro parte ao encontro da luz. 

É fascinante voar, mesmo ainda que seja com os pés no chão. 

É fascinante desenhar! 

Totonho Laprovitera, 1989.

terça-feira, 19 de junho de 2018

Vaval na Copa da Rússia


Na Rússia, em seu humilde camarote, a foto revela o simples Vaval assistindo ao jogo Brasil x Suíça, valendo pela Copa do Mundo 2018.

(Foto: Charlie Lune)

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Palhaço de circo


Sucedida lá pelos anos 50, esta história eu ouvi do Alex Figueiredo, amigo de privilegiada memória e notável contador de causos. 

Após se eleger deputado estadual, um determinado doutor costumava ir todos os finais de semana com sua esposa à sua cidade natal, no interior cearense. 

Certa vez, quando lá chegaram, a esposa assim que viu um circo armado em largo terreno baldio, falou: 

- Ah, que eu quero ir... 
- Mas querida, dizem que o palhaço é muito imoral. – comentou o doutor. 
- Mas eu gosto tanto de circo... 
- Mas... 
- Mas o que, meu doutor?! Eu quero ir e vou e pronto! 
- Está bem, está bem... Cabo Otino, vá lá e diga para o palhaço que o espetáculo de hoje vai ser de respeito! Nada de saliências! 

Tido e havido como cavalo batizado, Otino era o cabo do destacamento local que cumpria a missão de proteger a autoridade maior do lugar. Como não tinha o costume de pegar leve, foi logo direto ao circo e pregou a regra de comportamento para o palhaço. 

Porém, naquela noite, tudo ia muito bem, até o ousado palhaço puxar o cós da folgada calça e gasguitar: - “É a meuda!” 

Aí, quando doutor se levantou e disse “minha filha, vamos embora, vamos embora”, cabo Otino invadiu o picadeiro e partiu pra cima do palhaço: - “Que esculhambação é essa, seu fela da gaita?! Respeite as autoridades, seu baitinga!” 

Com o dedo em riste ao nariz do acuado palhaço, prosseguiu: - “Olha aqui, seu rolete de estrume, eu não sei porque eu não arranco essa sua língua podre pelo fiofó! 

E, pra terminar, batendo com os dois dedos nas insígnias ombreais da farda militar, finalizou a regulagem se impondo como braço-de-ferro: - “E tem mais, exijo respeito porque essas fitinhas daqui não foram pregadas com sebo de pica, não!” 

Resguardados, o doutor e esposa permaneceram no camarote principal, o espetáculo prosseguiu e o palhaço, comportadíssimo, não disse mais nem um inocente nome feio sequer.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Balé


Quando esteve em Sobral, o Ballet de Kiev teve na plateia aquele que se diz um dos mais notáveis discípulos do mestre da dança Hugo Bianchi: o cearense Aureclydes! 

Registrado em cartório e batizado como José Quincas, Aureclydes reside atualmente na cidade de São Paulo, onde trabalha como testador de camas e colchões, em uma pequena fábrica localizada no distrito de Marsilac. Concomitantemente, há muito se prepara com afinco em busca de alguma oportunidade para participar de qualquer reality show. 

Pois bem, segundo Aureclydes, ao ser convidado pelos ucranianos a integrar o elenco na ocasião, da fila do gargarejo, diante do improvisado palco armado defronte ao Arco de Nossa Senhora de Fátima, situado na Avenida Dr. Guarany – antigo Boulevard Pedro II – esnobou: - “Tô fora e completamente sem clima, meu! Imagina, é fria neste calor daqui! Me pelo de medo de choque térmico...” 

Na verdade, filho de Massapê, Aureclydes passou a se identificar com a cultura ucraniana desde quando foi estudar o ginasial na Fortaleza. Tanto que, a partir daquele tempo, seu prato predileto tornou-se o tradicional "Frango à Quieve", miseramente servido no “Bar & Restaurante Russas”! Porém, depois de se entregar à geofagia e o bucho se danar a crescer, Aureclydes trocou o gosto da dança pelo o de caminhar – de bar em bar.

domingo, 10 de junho de 2018

Velhos tempos, belos dias


Sílvio Frota me enviou um vídeo do pessoal da Jovem Guarda cantando “Jovens Tardes de Domingo” e comentou: - “Bateu uma saudade do Aymar.” 

Aí, respondi: - A cara dele. Cedo da manhã, lembro, Aymar me telefonava quase que diariamente para falar de algum negócio novo dele, pra dar notícias de amigos e mangar do povo! Sinto falta disso. 

É, se não eternizada, pelo menos, a vida deveria ser do tamanho para que a saudade pudesse nos levar de volta aos momentos simples e felizes que vivemos. 

“Velhos tempos, belos dias...”

sábado, 9 de junho de 2018

Freguês de coco


Nas caminhadas no concorrido calçadão da Beira Mar, em Fortaleza, os adeptos formam um bom convívio entre eles e uma certa fidelização com os ambulantes da avenida. 

Pois não é que ao ser reclamado por um falante vendedor de coco, pela recente ausência em sua venda do assíduo freguês Mainha, Pintinho respondeu: - “Rapaz, é o seguinte. Aqui você só tem água de coco – quando muito uma lambugenzinha – e nosso amigo Mainha gosta mesmo é de quenga!” 

(Foto: Anchieta Dantas Jr.)

sexta-feira, 8 de junho de 2018

Paixão de Cristo de Cajazeiras com Nossa Senhora do braço engessado


Assuntando com o velho amigo Gaubi, lembramos que, em uma movimentada Semana Santa do ano de 1989, Cajazeiras entrou definitivamente para a história geral do teatro religioso. Foi quando lá se apresentou a primeira Nossa Senhora com braço engessado, na peça “Paixão de Cristo”, encenada por moradores daquela cidade paraibana. 

Tudo começou quando, através da Secretaria de Cultura do Governo da Paraíba, a mitológica “Galera do Mal” arrumou 50 mil cruzados novos para custear a peça. Porém, com o dinheiro em caixa, a turma cresceu os olhos, gastou 45 e sobrou somente 5 para a atração maior: a conterrânea Marcélia Cartaxo. Mesmo assim, a atriz, que na época fazia o maior sucesso no cinema como Macabéa, do premiado filme “A Hora da Estrela”, topou o cachê por amor à terra. 

Então, com a grana curtíssima, viram-se forçados a compor o elenco entre eles. Em destaque, Gutemberg era José de Arimateia e Aguinaldo, seu irmão, Judas – que na hora de se enforcar, foi um deus-nos-acuda, pois a corda puxou e quebrou o galho da árvore de uma vez, deixando o Iscariotes pegar 14 pontos na mandíbula. Quanto aos figurantes, a maioria foi selecionada pela periferia da cidade. Na base da improvisação, por exemplo, os centuriões foram convocados pelos campos de várzea e suas lanças eram feitas de cabo de vassoura enrolado com papel metálico laminado. 

Pois bem, na véspera da estreia do espetáculo, quando do derradeiro ensaio, a dupla Gutemberg e Pepé (no papel de José) arranjou um jeito de “dar pezinho” para Marcélia montar em um acanhado e avantajado jumentinho, gentilmente cedido por um prestimoso verdureiro cajazeirense. Aí, a cena foi desastrosa: - “Um, dois, três, meio e já!” – a Nossa Senhora passou direto, sobrou pelo lombo do animal, escorregou, foi bater lá do outro lado e “tibum!”, caiu por riba do braço. 

Acudida, Marcélia foi levada às pressas ao Hospital Regional de Cajazeiras. Na Emergência, após cumprido o histórico clínico e avaliados os sintomas apresentados, realizaram os devidos exames. Batida a chapa de raio X, veio o diagnóstico médico: “Fratura diafisária óssea do antebraço”! Encaixadas as partes da quebra, imobilizaram a área afetada, prescrevendo à paciente analgésicos e anti-inflamatórios. Ainda, recomendaram-lhe repouso. 

No dia seguinte, os produtores do evento pensaram em despistar o braço encanado da atriz, encobrindo-o com o Sagrado Manto de Maria, mas mudaram de ideia. É que os marqueteiros da “Galera do Mal” trataram de transformar aquela desdita em proveito, qualificando e espalhando a peça como “Paixão de Cristo de Cajazeiras, a única do mundo com Nossa Senhora do braço engessado”!

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Velho sonhador

Totonho Laprovitera - O universo da jangada do Nearco - 2016 - Infogravura - 30 x 50 cm.

“Não és sequer a razão de meu viver, pois que tu és já toda a minha vida.” (Florbela Espanca) 

Há muito tempo, na antiga Praia do Peixe – hoje de Iracema – Bode Ioiô era useiro e vezeiro em contar aos berros que o velho sonhador Mestre Totinha teria passado a vida inteira indo ao alto mar, lá bem depois da risca, pescar uma rara e única espécie marinha, em que acreditava haver caído do estrelado céu da longa e brilhante constelação pisciana. 

Pois é, todo santo dia Mestre Totinha madrugava e, embarcado em miúda jangada de piuba, debaixo do ciano do céu e do amarelo do sol, enfrentava mistérios das profundas verdes águas fortalezenses. Era quando se deixava levar ao sopro dos ventos – encarando perigos, desafiando nortes e navegando quimeras – que conversava com o tempo. Do sal da praia, aos sóis, dias e noites e luas, ele teimava em navegar contra a insossa realidade absoluta. 

Bem, pra terminar logo esta ligeira história, talvez o velho sonhador Mestre Totinha nunca tenha conseguido pescar a tal criatura, mas como bem intuía sobre seus propósitos de vida, sem querer, foi assim que ele achou uma boa razão para durar exatos 105 anos de idade!

terça-feira, 5 de junho de 2018

Simples artistas

Totonho Laprovitera - Árvores - 2016 - Infogravura - 29,7 x 42 cm.

Matutando sobre a função do artista na sociedade atual, naveguei pelo universo do que somos. 

Por exemplo, ser premiado em algum salão ou concurso pode causar à nós, artistas, sentimentos opostos, se desse modo alcançarmos sucesso ao mesmo tempo em que nos desperta a consciência de agradarmos a quem desvalemos. Assim, um prêmio pode significar o esgotamento da nossa produção artística, onde o único responsável somos nós mesmos. 

E digo mais. Quando constatamos uma obra de nossa autoria ser usada para finalidades avessas aos nossos desejos, sentimo-nos ameaçados quanto ao conceito de autenticidade artística, pois o que mais nos interessa é a liberdade da mensagem para suprirmos os vazios que a realidade deixa em branco. 

Portanto, não vamos complicar, produzindo meramente para agradar e nem viver de falsas aparências, pois a simplicidade nos é generosa.

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Fenômeno


No final dos anos 60, em uma pequena cidade da Zona Norte cearense, um jovem cientista autodidata realizou o seguinte experimento: passou uma semana inteira lavando direto o próprio ânus com o perfumadíssimo sabonete Viol. 

Após gastar uma caixa completa, cumprindo etapas de seu método científico, finalizou o experimento. Passou a mão no límpido fiofó, cheirou profundamente, analisou e concluiu o fenômeno, afirmando: - “Cu é cu!”