segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A casa dos Libion

Jacques e Lydia.

A história de expressivos artistas da MPB passa pela casa de Lydia e Jacques Libion, na Travessa Santa Leocádia, 56, em Copacabana, no Rio de Janeiro. 

A iugoslava Lydia e o francês Jacques se conheceram logo após o final da Segunda Guerra Mundial, na França, quando na dor da perda de seus afetos se encontraram e se uniram no amor. 

Assim sendo, decidiram morar no Brasil. Na época, Jacques era representante da respeitável Hachette, uma tradicional livraria e casa editorial francesa fundada em 1826. A partir daí, com extraordinário carisma, o casal se destacou por atrair muita atenção, causar boa impressão nas pessoas naturalmente. Desse modo, prestigiado, tornou-se muito querido e passou a reunir em seu lar os mais diversos intelectuais e artistas nacionais e internacionais. 

Lydia e Jacques, ainda, acolheram muita gente das artes em sua morada, um autêntico mirante do azul localizado em uma acentuada ladeira no coração da Zona Sul carioca. Por lá passaram: Elis Regina; Fagner; Chico Feitosa; Miele; Joana Fomm; Maysa, Sérgio Mendes; Amelinha, Nonato Luiz e Bernard Buffet – um dos pintores mais famosos do mundo pós-guerra – dentre outros. 

Coberta de arte e cultura, a casa dos Libion se tornou patrimônio material e imaterial da cultura brasileira. Ambientada com as mais diversas passagens, era um precioso santuário a guardar viva a nossa memória. 

Em cada canto da casa, nas paredes, quadros dos mestres Bernard Buffet, Di Cavalcanti, Guignard e Chico da Silva, por exemplo, descreviam a paisagem de tantas histórias que acendem as luzes dos postes que iluminam uma rua chamada saudade. 

Conheci Jacques e Lydia através do amigo Raimundo Fagner, que os tinha como seus pais no Rio de Janeiro, desde quando o casal soube que ele aniversariava no mesmo dia de um filho que havia perdido. 

A última vez que vi Jacques foi por ocasião da gravação do disco “Amigos e Canções”, do Fagner, no estúdio Companhia dos Técnicos, em Botafogo, em 2004. Lembro como se hoje fosse, a canção era “Saudade”, de Mário Palmério, e teve a participação da cantora Joana. 

Após a partida de Jacques, Lydia ficou morando só, mas sempre muito bem assistida pelos “filhos” Fagner, Lilibeth e Lulinha. 

Certa vez, quando minha filha Joana foi estudar teatro no Rio, Lydinha nos ofereceu um jantar de boas vindas. Para reafirmar a nossa benquerença, ela deu de presente para Joana um pingente de ouro em formato de coração, e disse: - “Joana, receba o meu coração.” 

Dos passeios que tive o privilégio de compartilhar com Lydinha, dois permanecem bastante claros em minha memória: um, à casa de Lilibeth em Araras, na região serrana do Rio de Janeiro, acompanhados da maravilhosa e irreverente Alina Bulcão; outro, em Orós, no ardente sertão cearense, em visitação aos domínios de Fagner, quando fomos hóspedes do “seu” Eliseu Batista. 

A última vez que estive com Lydinha foi em sua histórica casa. Acompanhado de minha mulher Elusa e de meu filho Fernando Victor, fomos muito bem recebidos, como sempre. Falamos sobre as coisas simples da vida e de passagens corriqueiras que se tornam preciosidades existidas. A sua lucidez nos alumiava e maravilhava. 

Lydinha se foi em 12 de Maio de 2011. 

(Foto: Acervo Raimundo Fagner)

domingo, 22 de outubro de 2017

Vidas


Muitas vezes eu me surpreendo com os meus pensamentos. E, em ambiente de ficção científica, embalado na minha velha fianga, eu me abstraio e matuto. 

Creio que em um futuro bem distante, quando já decifrada a existência humana em relação ao tempo, os seres elevados se impressionarão com os antigos mortais, por terem cometido de tudo para durarem em suas efêmeras vidas. 

Observarão, então, a estranha obsessão do temor dos ingênuos humanos de se transformarem em seres de luz. 

Aí, quando dou fé, essa minha inquietação me aponta o princípio do precioso religare entre o homem e Deus.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Caçuleta


“Bater a caçuleta” é uma expressão nordestina que significa “bater as botas”; “passar dessa pra melhor”; “comer grama pela raiz”; ou seja, morrer. 

Caçuleta, pra quem não sabe, é um tipo de espingarda de pederneira, uma espécie de garrucha, que quando “dá xabu” (falha) em uma ação de refrega, denota o fim do seu usuário.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Pirulito

E não é que a Carmen Cinira encontrou um e fotografou.

Dizem que pirulito tem gosto de infância e eu concordo inteiramente com isso. 

De uma simplicidade e gosto que ainda hoje me fazem lembrar do meu tempo de criança, o pirulito era vendido por tudo quanto era canto da Fortaleza ainda moça. 

Feito de limão e mel, ele era enfiado em uma tábua cheia de buraquinhos e aí o seu vendedor fazia a festa da criançada, que também não dispensava um algodão doce ou um puxa-puxa. 

Muitas vezes o pirulito grudava no papel e então era o jeito o freguês chupar desse jeito mesmo. Agora, tinha que se ter muito cuidado com as obturações dentárias, pois o bicho era o cão para arrancar as danadas! 

Nunca mais vi um vendedor de pirulito pelas ruas da cidade, mas que eles ainda existem, existem!

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Lazarina


A lazarina é uma espingarda utilizada para caçar, em que a munição de chumbo se carrega pela boca dela. 

Seu nome surgiu em 1651, quando o milanês Lázaro Caminazzo iniciou a fabricação dessa arma, daí seu nome.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

"Bad boy"

Somente aparência de "bad boy", pois Vaval é totalmente do bem!

O “bad boy” ("garoto mau") é um arquétipo cultural definido de forma variada, muitas vezes usado de forma sinônima de um rapaz que se comporta mal, sobretudo dentro de normas sociais.


segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Vendedor de “chegadinha”


Quem se lembra do vendedor de “chegadinha” passando e tilintando o estridente triângulo, com a sua encardida chinela japonesa chulapando seus pés de calcanhares rachados, ao marchar pelas arquibancadas dos estádios Presidente Vargas e Castelão ao final dos jogos? 

Pois bem, toda vez que assistíamos a essa chistosa cena, nós ficávamos só esperando a primeira vaia para engrossarmos a fileira do coro dela! 

Passagens como essa me fazem atentar à valorização da legítima cultura do “Ceará Moleque” que, graças à Deus, teima em resistir aos novos tempos coalhados de virtualidades cibernéticas.

domingo, 15 de outubro de 2017

TOC toque


Fresco que só, Joãozinho era todo cheio de nojo. Passava o dia lavando as mãos, só comia em pratos esterilizados, bebia em copo escaldado, vestia-se de panos engomados, só ia ao banheiro de casa e olhe lá, se tivesse bem limpo! Quanto à higiene pessoal, asseio nem pensar! Tinha que ser banho completo, bem tomado, demorado, e com sabonete líquido Aseptol! 

Diziam que ele não era muito bom da cabeça, não. Seria neurastênico? Não sei se era, sei que tinha exagerada mania de limpeza e apresentava sinais de transtornos.

- Joãozinho, por acaso, você tem pensamentos repetidos, impulsos ou imagens mentais que trazem ansiedade?
- Tenho, sim.
- Sente sintomas que constam medo de germes ou contaminação?
- Sinto, sim.
- Lava as mãos exageradamente?
- Lavo, sim.
- Preocupa-se muito com limpeza.
- Preocupo-me, sim.
- Confere várias vezes portas, janelas, gás ou o ferro de passar roupas antes de sair de casa ou dormir?
- Como você sabe?
- Bem... Tem pensamentos proibidos ou indesejados com sexo, religião e perdas?
- Tenho, sim.
- Tem pensamentos agressivos em relação aos outros ou a si mesmo?
- Sim...
- Arruma sempre as coisas simetricamente ou em uma ordem perfeita?
- Sim. Por que?
- Meu amigo, se não me falha o meu “horóscopo”, você tem TOC...
- Toque?
- Sim. Transtorno Obsessivo-Compulsivo, o velho TOC!
- Toque?
- TOC! TOC!
- Quem é?!

sábado, 14 de outubro de 2017

Baleiros e cambistas


De primeiro, era corriqueira a presença de baleiros nos eventos da cidade. O Ferrim era um deles. Esguio senhor de idade, de pele parda, olhar tranquilo e sorriso duradouro. Trabalhava na calçada do Cine São Luiz e no Estádio Presidente Vargas. Parece que eu tô é vendo: - “Vai bombom, Drops, Pipper e Azedim...” Era seu repetido bordão de venda. 

Vixe, agora me lembrei quando os cambistas anunciavam seus ingressos à porta do velho PV, desse jeito: - “Geral e artibancada! Não pega fila, pino, nem leva dedada!”

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Máquina de descascar laranja


Antigamente – nunca mais vi uma – existia uma máquina manual de descascar laranja. De estrutura em ferro pintado, com praticidade e facilidade, ela funcionava da seguinte maneira: Prendia-se a fruta à dois eixos que, à manivela giravam ao mesmo tempo, enquanto uma pontiaguda e afiada lâmina em aço se ajustava à profundidade de corte, acertando a espessura desejada da operação. 

Aí, terminada a intervenção, o vendedor sacava com uma faca um chaboque cônico e dava a laranja para o freguês chupar. 

Ao redor do carrinho que carregava a tal máquina, um emaranhado de assanhados fios de casca de laranja se derramava ao nodoado chão calçado de mosaico cinza.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Empresa virtual


Esta história ocorreu no tempo em que ainda não havia documentos disponibilizados por meios eletrônicos. 

Pois bem, em uma festa de aniversário de uma prestigiada personalidade política cearense, sentei à mesa com um destacado e bem-sucedido empresário local. Conversa vai, conversa vem, ele me perguntou sobre qual era o meu trabalho. Aí, eu me apresentei como arquiteto e, brincando, disse que estava criando uma empresa diferenciada para a minha atividade profissional. Curioso e levando à serio, ele indagou sobre o tal aspecto diferenciado. Respondi que era uma empresa virtual, de alta responsabilidade ecológica e ambiental. E emendei: - “Para o senhor ter ideia dessa inovação em relação ao comprometimento com os nossos princípios, para evitar a utilização de papel impresso em campanha contra a devastação de nossas matas, não fazemos uso nem de nota fiscal!”

Aí, o exitoso empresário se aproximou de mim e, falando baixo, todo interessado, inquiriu-me: - “Por obséquio, amigo, como é mesmo que funciona essa sua empresa?”

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Paris e Fortaleza

Totonho Laprovitera - Constelação Calango Cego - 2015 - ASM com aplicação de espinhos de mandacaru - 45 x 60,5 cm.

Eu estava deitado em minha rede, sonhando acordado com as Constelações Nordestinas, quando, de Paris, recebi uma carinhosa ligação telefônica dos amigos Claudio Pinto e Jaildo Marinho e dei o maior valor! Os dois estavam na casa de Gonçalo Ivo, compartilhando memórias.

Ser lembrado por quem a gente quer bem é bom demais. Principalmente, pelos que celebram a alegria de viver ao brinde de um bom vinho. 

Claudinho e Jaildo, salve a Arte que se faz mãe para nos tornarmos irmãos!

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Paracuru


No município de Paracuru, uma cidade cearense à beira-mar de belíssima paisagem e que possui um dos mais animados carnavais do Ceará, lembro de uma concorrida adolescente carioca, que só queria ser as pregas, falando na fila do café da padaria com todos os chiados: - “Não sou burguesa, mas gosto de luxo e conforto!” 

Segundo a toponímia, oriunda da língua tupi, Paracuru significa "lagarto do mar".

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Perigos da noite


Conforme havia sido combinado, Lorrane trabalharia de dia e estudaria à noite. No primeiro dia de aula, dona Emídia, pediu ao esposo Francisco para ele instruir a jovem sobre os perigos da noite na cidade grande, e assim foi feito:

- Lorrane, minha filha...
- Sim, “seu” Francisco...
- Lorrane, quero lhe ensinar o melhor caminho para você ir e voltar à escola. 
- E qual é? 
- Vá e volte pela Antonio Sales, que é iluminada e movimentada. 
- Tá bem. 
- E não invente de ir ou voltar pela Henriqueta Galeno, que tá escura, tá esquisita... 
- Pode deixar, “seu” Francisco... 

Dada a instrução, os patrões ficaram tranquilos. Porém, na noite do dia seguinte, Lorrane chegou em casa toda descabelada, com o vestido rasgado, toda azunhada e com o pescoço mordido! 

- Lorrane, minha filha, pelo amor de Deus, o que foi que aconteceu?! Pergunto Francisco. 
- Minha filha, pela Virgem Maria, o que foi que fizeram com você? Emendou dona Emídia. 
- “Seu”Francisco, dona Emídia, um bicho véi me pegou! 
- Onde?! 
- Bem que o “seu” Francisco disse preu não andar pela aquela rua véia escura... 
- Eu lhe disse! Pra que foi que você me desobedeceu?! Em tempo de morrer! 
- Pois é, “seu” Francisco, fui desobedecer... Mas por sorte eu escapei... 
- Como escapou?! 
- “Seu” Francisco, escapei de morrer graças à minha... Da minha... 
- “Da minha” o que, Lorrane?! 
- Da minha...
- O que?! 
- Se não fosse nela, o cabra véi tinha era furado o meu bucho! 
- O que?! 
- Era, sim, “seu” Francisco! Pense num cabra do bicho véi duro!

domingo, 8 de outubro de 2017

Cidade na medida

Totonho Laprovitera - Monumento à natureza - 1984 - Escultura em concreto armado.

Para mim, falar de cidade é pensar em qualidade de vida. Cogitar a razão da sua existência, de suas razões e de seus significados. É dizer sobre a sua ambiência e a sua escala. 

Sobre escala, eu entendo o palmo como muito mais do que os estipulados 22,86 centímetros medidos com a mão toda aberta desde a ponta do dedo polegar até a ponta do dedo mínimo. Assim como a braça (com 2,20 metros, medidos de ponta a ponta de cada braço aberto dos dedos maiores das mãos), o côvado (com 67,2 centímetros medidos da distância entre o cotovelo e a ponta do dedo médio da mão), o pé (com 30,48 centímetros, calculado no tamanho do pé de um homem), a polegada (com 2,54 centímetros, da largura do dedo polegar humano na base da unha) e a passada, além dos convencionados 64 centímetros. 

Seguramente, são medidas que contem sentimentos e carregam em silêncio os desejos do “ir e vir”, do “partir e chegar”, do “planejar e realizar”. Muito mais do que números, elevam os sentidos das pessoas, oferecendo-lhes a extensão de referência com o próprio corpo humano. 

Pois é, aí eu me lembro quando certa vez disse Dr. Fran Martins, na medida certa, ao apresentar a minha exposição “A Cidade como Extensão do Corpo”, em 1982: “Os desenhos de Totonho Laprovitera representam um grito em favor da humanização da cidade – já que as cidades, como as pessoas, tem um corpo cuja beleza depende exclusivamente dos cuidados e do carinho dos que a administram e dos que a habitam.”

sábado, 7 de outubro de 2017

Carro-pipa


Para quem quer saber o verdadeiro significado de “carro-pipa”, pipa é uma medida de capacidade que equivale a 480 litros, ou seja, 40 potes. 

Nada a ver com a pipa, a nossa “raia” – aquele brinquedo popular que voa pela oposição entre a força do vento e a da linha agarrada pelo brincante.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Gabriela



GABRIELA 
(Totonho Laprovitera)

A janela não é minha
e a paisagem é toda dela
Meu olhar segue a linha
com a luz de Gabriela

(Foto: Totonho Laprovitera)

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Artes

Totonho Laprovitera - Se eu fosse pássaro pra voar - 2016 - Posca sobre cartão - 20 x 20 cm.

Entendendo sobre técnicas e habilidades, dos traçados das condições sociais e o tutano da criatura pensante, matutei a respeito da importância das artes e anotei: A história da humanidade nos prova que toda civilização inteligente constitui o princípio da valorização cultural através da inserção das artes!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Tanto Tempo

video

TANTO TEMPO
(Sérgio Sá / Totonho Laprovitera) 

Tanto tempo se passou
até que nos encontramos
Hoje penso na ideia:
Do futuro pro presente,
vamos fazer nossa história
ser contada diferente

Quantos anos convivemos,
quantas vidas já vivemos?
Qual a sua direção,
qual é mesmo o sentido?
Como conta o destino
do que vai acontecer?

Acredito que na vida
nada por acaso é
Se você quiser me amar,
terei tudo que preciso
Mas, seja meu amor ou não,
quero lhe fazer feliz!

Pode acreditar, 
não preciso tanto de você 
pra lhe amar...