domingo, 9 de novembro de 2014

A pintura como devir

Totonho Laprovitera: Maria Bonita e Lampião - 2007 - AST - 100x100 cm.

A pintura como devir
Daniel Lins (filósofo e sociólogo)

Os grandes movimentos estéticos retraçam as diferentes maneiras de ressentir ou de amar. Só se cria por amor, só se faz arte por amor. A vida é a grande arte, a bela arte da efemeridade e busca permanente. Contra a fatalidade do futuro, força negativa, assombrosa, Totonho Laprovitera faz emergir a arte como devir, como comoção do sentimento decorativo – aquilo que merece ser representado – e sentimento imitativo: como representá-lo atribuindo à representação a força inédita da criação, daquilo que estar por vir? 

Eis o mérito maior do artista: passear pelo imaginário do cangaço, em um devir-criança que não julga nem comenta, interpreta, no sentido musical da palavra. De “Lampião” à obra “Cangaceiros”, por ele desenhado em 1979, em nanquim sobre papel, ao ”Cangaceiro”, em acrílica sobre tela, realizada em 2000, sua produção atual aqui exposta, ele propõe uma estética rizomática: não raízes, todavia, sensações, emoção, a inocência do devir, vibração dos corpos, imagem-cristal. Falando sobre seu trabalho, o artista afirma: 

- No palmilhar dos caminhos dos fazeres artísticos cheguei ao talho do “buril” do computador (instrumental posto a serviço da arte!) e me ocorreu a idéia do confronto entre xilogravura e infogravura. Desde aí, digitalizo as imagens fotográficas e, à mão livre, altero os retratos e passo as figuras para as telas. No ato de pintar, exprimo gestos espontâneos do desenho como desígnio. Sobre telas, as tintas aplicadas com pincel, espátulas, rolhas de cortiça, panos e mãos, em linhas, pontos e manchas assinalam a minha emoção.

A cartografia do cangaço aqui apresentada, com seus amores e desamores, amor-de-amizade, paixão, violência, morte, geofilosofia e não genealogia, é uma economia do virtual/atual proposta pelo artista próxima dos cineastas da imagem: sua arte é tão virtuosa como aquela da imagem em ação. Não seria uma merecida homenagem ao cineasta Abrahão, autor das imagens com as quais Totonho trabalha, revisita, inventando-as, numa elaboração inédita e rica em criações marcadas pela relação amorosa? Só se pinta por amor. 

Como o cineasta, o pintor restabelece uma situação por ação – os cangaceiros em constante fuga – revelando algo não percebido: a estética do cangaço, afora todo juízo, se extasia na invenção cotidiana da vida. Tão próximos da morte, eles cultivam o perigo, a paixão, encontros, a violência como objetos nômades sem quais não haveria cangaço. Dessa pintura-ação emerge um estilo: a ausência de linearidade e de “coerência” da imagem, a multiplicação dos elementos e dos planos nas telas, o gosto e a delicadeza apenas esboçados pelo corpo-amoroso, corpo-erótico: Lampião e Maria Bonita. Ambos, duplamente marginais: o amoroso é um marginal. 

A desterritorialização e a torção dos corpos, os esquemas sinuosos, a procura de movimento, a modificação das proporções das partes do corpo, os contrates e tons ácidos e crus, o alongamento das formas: Laprovitera ressuscita os cangaceiros! Ao contemplar alguns de seus trabalhos, tem-se a impressão que Lampião e Maria Bonita vão sair da tela e enfrentar a caatinga contemporânea – dois perdidos numa economia da violência – na qual ambos são coroinhas! Se o artista, em sua fase atual sobre o cangaço, busca grandes circuitos para unir uma imagem atual às imagens-mundo, ele parece procurar também o menor circuito que une a imagem atual – os cangaceiros – a uma espécie de duplo imediato, simétrico, consecutivo ou mesmo simultâneo: a invenção do pintor se acopla à imagem do cineasta (Benjamin Abrahão) numa independência própria aos grandes criadores, aqueles que não reproduzem, mas produzem.

Poder-se-ia argüir: Não haveria um “excesso” de imagem-lembrança, de eterno retorno do mesmo, de memória pela memória? Ora, enquanto a imagem-lembrança desenvolve um grande circuito do presente ao passado, a imagem cristal atual com a imagem virtual de um passado que permanece sempre presente, segundo um circuito mínimo. A cartografia do cangaço em movimento nômade, embora emoldurada, pois, se trata de pintura, é um exercício que cria a fissura, rasgando o quadro para ganhar o Sertão: grande circuito orgânico, mineral, cristalino, como as telas aqui apresentadas. 

Neste processo de contração e não de dilatação, a imagem-tela atual que nos é dada a contemplar é sempre cortada em seu prolongamento motor. Em vez de se desenvolver organicamente, ela cristaliza com sua própria imagem virtual no menor circuito interior possível. O artista preferiu, pois, em sua composição, abandonar a estrita simetria em benefício de agenciamentos mais complexos. As obras são o que estou a ver e, ao mesmo tempo, minha própria invenção. Não há simbiose, mas rizoma: sou leitor/autor daquilo que vejo. Não se trata de interação, mas de intercessor: aquele que olha é intercessor do artista-autor, como o visitante, se tiver olho de Índio, é também intercessor do próprio pintor. 

A invenção maior de Totonho Laprovitera, em sua fase atual, é abraçar as mutações surgidas no século XVII: O barroco, em relação ao clássico, privilegia o Pictural sobre o Linear; a Profundidade sobre a superposição dos planos; a Forma fechada; a multiplicidade sobre a Unidade, a Obscuridade sobre a Claridade. Sua obra sobre o Cangaço é uma rigorosa aula de arte que exprime a luta entre o mundo aparente derivado dos mundos originais eternamente velado sob si mesmo. 

Por fim, para além da importância dessa obra aqui anunciada, a presença de uma abstração geométrica quente, como uma espécie de homenagem (inconsciente) a Paul Klee e Vassily Kandinsky, tira sua inspiração do real (Cangaço) para transformá-lo numa construção que evoca outra coisa ao espectador. 

Seus heróis, os cangaceiros, parecem inseridos em uma ideologia, mas as provas que atravessam geram um medo que transforma o cérebro e o imaginário, modificando sua percepção do mundo. Ao instaurar uma metafísica da carne ela torna-se, como o cangaço, sonho, arte, beleza. Uma beleza – quem sabe? – “como a parte terrível do horror” (Rilke), mas beleza, apesar de tudo. Sua obra é sensação ótica pura. 

Ave Totonho Laprovitera! A graça é possível, a vida pode ser um sonho, pois, o conhecimento, força maior da alegria, milita contra o niilismo e em favor da arte. Só a alegria é revolucionária! Sua arte é alegre, destila vontade de potência, quebra as arestas do mesmo, insere a estética nas artérias do corpo e do gozo. Com a palavra o artista: 

- Na minha pintura, a simples receita: Na paleta da vida, misturo arte com amor!

Texto de apresentação da exposição Cangaço, realizada em 2007, na Universidade de Fortaleza – Unifor, no Ceará.

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