domingo, 16 de novembro de 2014

A vaquinha


Um mestre da sabedoria passeava pelo campo com seu fiel discípulo quando avistou ao longe uma casinha de aparência bem humilde e resolveu fazer uma breve visita. Durante o caminho, ele discorreu ao aprendiz sobre a importância das visitações e as oportunidades de aprendizado que temos, também, com as pessoas que mal conhecemos. 

Chegando, eles verificaram a pobreza do lugar, sem calçamento, casa de madeira, os moradores, um casal e três filhos, vestidos com surradas roupas. Então, o mestre chegou perto do senhor, aparentemente o pai daquela família, e perguntou: 

- Se aqui não tem ponto de comércio e de trabalho, como o senhor e a sua família conseguem sobreviver aqui? 

Calmamente, o senhor respondeu: 

- Meu amigo, nós possuímos uma vaquinha que todos os dias nos dá alguns litros de leite. Uma parte dele a gente vende ou troca na cidade vizinha por comida. A outra, nós fazemos queijo e coalhada, para o nosso consumo. Assim, vamos sobrevivendo.

O mestre agradeceu, observou o lugar tranquilamente, se despediu e partiu. No meio do caminho, ordenou ao seu fiel discípulo: 

- Aprendiz, pegue a vaquinha, leve-a naquele abismo ali na frente e empurre-a, lá pra baixo. 

Assustado, o jovem arregalou os olhos e questionou o mestre sobre o fato da vaquinha ser o único meio de sobrevivência daquela família. Mas, como intuiu o silêncio absoluto do seu mentor, cumpriu a ordem. Empurrou a vaquinha morro abaixo e ela morreu. 

Durante anos, aquela cena ficou dolorosamente marcada na memória do jovem. Porém, em um belo dia, ele resolveu deixar de lado o que havia aprendido, voltar naquele mesmo lugar, contar tudo aquela família, pedir perdão e ajudá-los. 

Assim fez. Mas, quando chegou ao local avistou um sítio muito bonito, com floridas árvores, todo murado, com carro na garagem e algumas crianças brincando no jardim. Triste e desesperado, imaginou que aquela humilde família tivera que vender o sítio para sobreviver. Avexou o passo e, lá chegando, logo foi recebido por um caseiro muito simpático. Aí, perguntou sobre a família que morava ali há uns quatro anos e o caseiro respondeu: 

- Continua morando aqui. 

Admirado, o jovem entrou correndo na casa e viu que era a mesma família que visitara antes com o mestre. Elogiou o local e perguntou ao senhor, o dono da vaquinha: 

- Como o senhor melhorou este sítio e está muito bem de vida? 

Entusiasmado, o senhor respondeu: 

- A gente possuía uma vaquinha que caiu no precipício e morreu. Daí, tivemos que fazer um bocado de coisa, de um jeito ou de outro. Assim, conseguimos ter tudo isso que você tá vendo agora. 

Ponto de Reflexão: Todos nós temos uma vaquinha que nos dá alguma coisa básica para sobrevivência e uma convivência com a rotina. Descubra qual é a sua. Aproveite a entrada de um novo dia, ou de um ano novo para empurrar sua “vaquinha” morro abaixo.

(Foto: Acervo Kalu Brandão)

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