domingo, 13 de abril de 2014

Era estranhamente cedo


Bolindo em meu baú de antigos arquivos, encontrei este texto que deve ter sido escrito lá pelos meados dos anos 1980.

Era estranhamente cedo, para mim, acordar às sete da manhã. Até parecia que eu iria jurar a bandeira na junta militar. Mas, não era nada disso. Eu apenas interrompia meu sereno sono para ver o que estava acontecendo pela janela.

A companhia de energia podava as árvores da rua e o amolado barulho dos facões, combinado com o cair dos galhos, e as conversas fiadas dos peões tiravam-me da rede para que eu pudesse assistir o alvorecer do dia. Pensei na vida e senti a preguiça de encarar a pressa dos que passam pelo mundo. Depois, caminhei até à cozinha e tomei um breve gole de café. Calmamente, acendi um cigarro e entre um trago e outro bati a cinza no velho e companheiro das madrugadas cinzeiro.

- Caiu da cama? Perguntou-me a minha mãe.
- Acho que caí do sono. Respondi.
- Faz bem acordar cedo...
- É que minha natureza é notívaga.
- Larga de ser preguiçoso...

Interessante, como as pessoas, por mais próximas que nos sejam, não compreendem que todos temos nossas natas individualidades. É difícil fugir dos rótulos. Dormindo pouco é porque somos excitados demais ou estamos virando lobisomem. Dormindo muito é preguiça em demasia. Eu não durmo muito, nem pouco, durmo o suficiente. Agora, o que acontece é que invariavelmente durmo tarde. Tarde para os outros. Pra mim durmo na hora certa. A madrugada me é companheira e inspira a minha criatividade. Gosto de ler, escrever, desenhar e pintar. Gosto de ouvir música e de ouvir a rádio mixada com os longínquos latidos dos cães da rua. O som do silêncio também me fascina, mas hoje em dia é coisa rara. Tão rara que faz é tempo que não consigo sequer ouvir a minha circulação
sanguínea.

- Ainda tá acordado?! Vai dormir, rapaz...
- Vou já...
- Tá sempre trocando a noite pelo dia...
- A noite faz parte do dia...
- Deixa de conversa e vai dormir...
- Vou já.

A mesma lenga-lenga de sempre...

Sabe, quando me recordo dessas passagens da minha adolescência tenho a certeza de que tudo que a gente faz na vida tem a sua razão de ser. Lembro de uma época em que eu tinha o hábito de fazer palavras cruzadas e jogos tipo sete erros, labirinto e ligue os pontos, eu falava, cá comigo:

- Que coisa mais sem futuro... Será que isso me vai ser útil um dia?

Não demorou muito o tempo em que ao fazer uma prova de habilidades específicas, parte da seleção para ingresso na universidade, deparei-me com questões similares às do meu “inútil” hábito.

Muitos dos meus descompromissados rabiscos já se tornaram excelentes desenhos e projetos. E daí, lá chega de novo a história do sono. Pois bem, já me ocorreram grandes ideias em sonho e eu as desenvolvi e as materializei, decorrendo em grandes produções e trabalhos. Hoje em dia, já nem sei se até o nada fazer é inútil! Aliás, nesses tempos onde os recicláveis tem tamanho valor e importância, nada é inútil. Inútil, no meu modo de ver e viver, somente o desamor. Sobretudo, o desamor à vida. E a vida não se resume apenas à nossa, a vida é divinamente vasta e ampla. E simples, acreditem. Dói-me ver o desprezo dos ditos humanos com os mais fortes e significativos valores da vida em troca de comportamentos e atitudes fúteis e vazios. Ser humano é ser humano. É quando penso: a gente veio ao mundo para ser feliz! E é quando peso: quanto vale o nosso tempo de existência? Jamais deveremos ser espectador da vida, temos mais é que realizar e vivê-la.

Enfim, o maior segredo da felicidade está em cada um de nós. Para sermos felizes, basta termos a consciência de quem somos. E, muitas das vezes em que a gente procura ser a gente mesmo, não é fácil, não. Quando vejo as pessoas enquadradas dentro dos ditames do que seja a realização pessoal, lembro que o mundo não é uma fazenda e não somos gado. É certo que em grupo somos mais do que cada um de nós, claro, mas individualmente devemos ser cada um de nós mesmo. Jamais poderemos na vida representar um papel. Devemos, sim, ser o resultado do que realmente somos. Essa busca deve acontecer no exercício diário da vida. Outro dia, conversando com um político, observei que ele falava de si próprio na terceira pessoa. Pensei, cá com meus botões: É por isso que ele dorme tranquilo, pois no sono ele é ele mesmo. Ou seria vice-versa? Quanto controle... O perigo reside quando o personagem criado domina o criador. Mas, essas coisas banais hoje em dia, tipo honestidade, está de um jeito que até já ouvi de um perseverante empresário, em brados:

- Neste ano enrico, nem que seja honestamente!

Qual o verdadeiro sentido da riqueza?, me perguntei. Parece doidice minha, mas, juro por Deus, como não entendo as pessoas que para serem ricas precisam de dinheiro... E isso não é apologia à pobreza, não! Dinheiro, claro, é bom demais, ruim é a falta dele. Mas, não podemos alicerçar nossas vidas em cima do ter sobre o ser. Duas coisas cedo aprendi. Uma: O verdadeiro rico é aquele que sabe ser pobre. Outra: É melhor ser rico com saúde do que pobre doente.

Quanto custa para quem leva a vida calcada no ser? Sendo através do ter, bote grana! O que falta na sociedade, hoje em dia, é saber avaliar essa riqueza passiva do ser. Não tem dinheiro no mundo que pague um sorriso de uma criança, nem um conselho de um velho. Aliás, mudando de conversa, não tem coisa melhor para ressaca do que um cheiro na cabeça de um bebê. É melhor do que chorar quando bate uma porta. Mas, para ressaca de papo ruim, nada dá jeito. A única coisa a fazer é você reagir com esforço para que as ouvidas asneiras não lhe impregnem o juízo. Ouvir besteira não tem cão que aguente. Porém, jamais confunda besteira com amenidade. Amenidade é uma utilidade para a saúde da cabeça. Por isso, saiba, quando você ouve besteira é fácil de constatar seus primeiros sintomas. Número um: ressaca. Número dois: você volta pra casa se sentindo burro. É dose!

Pois é, no mais, todo ser humano já nasce vencedor. Caso não o fosse, não tenham dúvida, nem teria nascido.


(Foto: Ney Filho)

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